| Tempos
de Bauru
Onze
de Março de 1963. Era uma noite como qualquer
outra. O cheiro da noite e o barulho das crianças
brincando na calçada atestavam a tranqüilidade
que Bauru possuía entre tantas cidades do interior
de São Paulo. A calma da casa na Rua Comendador
Leite 1-23 de repente se transforma em preocupação
nas palavras de minha mãe.
— Vergílio, acho que está na hora.
Vá e chame a parteira.
Sem
demora lá foi meu pai a procura daquela senhora
que tantos já havia trazido para este mundo sem
problema algum.
—
Certo, boa estatística, mas, Senhor, por favor,
nos ajude nesse parto também — pensava
meu pai enquanto caminhava apressadamente pelas ruas
do Jardim Bela Vista.
Não
era longe por certo, mas aquela distância nunca
pareceu tão grande. Uma hora depois lá
estavam eles. Esquenta bastante água, tire as
crianças daqui, prepare alguns panos, e reze
bastante. Longos momentos depois, nasci, finalmente!
Meus irmãos espiavam pela fresta da parede de
madeira.
—
Olha o pezinho dele! — dizia minha irmã
disputando espaço com meu irmão pelo melhor
ângulo. Eu estava feliz, com certeza, após
a minha passagem de vinda! Afinal, eu estava aqui!
O
céu azul acima do muro
Difícil
recordar detalhes de nossa primeira infância.
Talvez alguns sons, imagens confusas numa cabecinha
ainda tentando reconhecer e se organizar. Minha irmã
cuidava de mim enquanto meus pais trabalhavam fora.
Acho que cuida até hoje de certa forma. Fecho
os olhos tentando recordar alguma coisa. Lembro das
madeiras do chão da sala. Sempre enceradas e
brilhando. Cera, aliás, que se acumulava entre
as pranchas e que me ajudavam a fixar alguns animais
de papel que eu, cuidadosamente, recortava. Elefantes,
cavalos, coelhos, do papel criavam vida própria
na minha imaginação.
Um
momento! Lembro de um outro lugar! O chão coberto
de palha de arroz e muita gente, muitas mesas. Peguei
o telefone e liguei para minha irmã. Ela me diz
que sim, houve uma festa de casamento. Era da nossa
vizinha, do outro lado da rua. Havia muita gente, muitas
mesas e palha de arroz no chão. Então
é possível lembrar!
—
E cheiro de madeira, porque me recordo disso? —
eu perguntei.
—
Certamente vindo da serraria que havia no prédio
logo atrás da nossa casa. Você devia ter
uns cinco anos apenas.
OK!
Eu agora acredito. É possível lembrar!
Tento
me concentrar mais e mais para o passado.
—
A memória é azul. Parte de baixo não.
Parece uma construção.
Ela
parou por uns instantes.
—
A janela! Você está lembrando da janela
do seu quarto quando você era bebê. O seu
berço ficava de frente para a janela e você
podia ver o céu e um pedaço do muro! Você
passava horas, tranqüilo, apenas olhando para aquela
janela, olhando para o céu.
Senti
uma sensação estranha ao ouvir aquilo.
Será que conseguimos "voltar no tempo"
e lembrar até do período anterior ao nascimento?
Tentei um pouco mais, mas nada parecia fazer sentido.
Talvez necessitasse maior concentração,
ou maior autorização.
As
raízes da vida
É
bom lembrar das coisas da infância, dos lugares,
dos eventos, mas nada seria igual sem as pessoas, sem
a família. Meu pai, seu Vergílio era servente
do Instituto Brasileiro do Café. Minha mãe
Dona Zuleika, era escriturária da Rede Ferroviária
Federal. Meus queridos pais, meus grandes mestres! Gosto
de dizer que, apesar de ter estudado praticamente toda
a minha vida para atingir os "graus" de formação
acadêmica, as coisas mais importantes que aprendi
até hoje foram ensinadas por eles, a quem eu
devo simplesmente tudo o que sou como pessoa. Ambos
já se foram dessa dimensão. Mas tenho
certeza que, seja lá em qual dimensão
estiverem, eles ainda olham por mim e sabem muito bem
do orgulho que de poder chamá-los de "meus
pais."
Por
mais estranho que possa parecer, nos momentos mais difíceis
da minha vida, ainda ouço suas vozes me acalmando
no meio da tempestade. É como um sussurro tênue,
mas que fala alto ao coração, e que me
deseja tudo de bom. Eles me dizem para ter paciência
e nunca desistir de amar e ajudar as pessoas, todas
elas, as que me querem bem e também aquelas que
só querem me prejudicar. Como dizia o "seu"
Vergílio: a sua atitude tem que refletir os seus
valores e não o comportamento de outras pessoas.
Tenho
certeza que, um dia, nos veremos novamente. Certamente
será um reencontro sem as preocupações
e as dificuldades desse mundo.
Meu
irmão, Luiz Carlos, e a minha irmã, Rosa
Maria, ainda vivem em Bauru. Estão longe daqui,
mas sempre perto do coração e ainda com
uma grande influência em minha vida. É
importante ter esse sentimento de família, essa
ligação forte de carinho e compreensão
mútua. A família sempre foi para mim algo
de extrema importância. Acredito ser a estabilidade
familiar o primeiro passo, a pedra fundamental, para
o crescimento do indivíduo em todos os aspectos.
Agradeço
muito a Deus pela oportunidade de ter convivido com
pessoas tão maravilhosas. Sinto pena daqueles
que vivem neste mundo carregando um pesado fardo de
sentimentos ruins contra outras pessoas, algumas vezes
contra os próprios pais, os próprios irmãos
e, em muitos casos, tão orgulhosos para pedir
perdão e dar uma chance para a própria
felicidade.
A
poeira da inspiração
O
início de minha vida era brincar descalço
pela Rua Comendador Leite. Mais tarde mudamos para a
rua Beiruth, também no Jardim Bela Vista, onde
passei grande parte de minha infância, bastante
feliz, diga-se de passagem. É fácil lembrar
daquele tempo. Aliás, sou repleto de boas lembranças
da vida de cidade de interior, como "jogar bola"
na chuva, nadar no "rio Batalha", comer frutas
"do pé", etc. Realmente são
muitas recordações. Entre elas, alguns
momentos ficaram marcados pela emoção
intensa, com todos seus detalhes, na percepção
ainda confusa de um garoto de 9 anos: a morte do meu
avô Francisco que morava conosco, a chegada do
homem a Lua e o Brasil vencendo a copa no México.
Como tudo na vida, uma mistura de fatos bons e ruins.
Crescemos assim, aprendemos assim.
Outras
grandes lembranças foram por conta das visitas
ao Aeroclube de Bauru para ver a Esquadrilha da Fumaça
voando seus elegantes North American T6. Lembro também
das visitas à Academia da Força Aérea,
em Pirassununga, onde meu tio, na época o Sargento
Oswaldo Canova, servia como membro da equipe de manutenção
das aeronaves da esquadrilha.
Decolava
ali, entre a poeira levantada pelos motores dos T6 no
estacionamento do aeroclube de Bauru e o cheiro de combustível
de aviação nos hangares da AFA, o sonho
de voar que me sustenta nessa jornada até hoje.
O meu ideal começava a criar asas!
Minha
querida professora
Meus
primeiros anos de escola foram no "EEPG Lourenço
Filho" e no "EEPG Francisco Antunes"
onde cursei o “primário”, como era
chamado antigamente o período da primeira à
quarta séria. Uma peculiaridade daquela época
era o fato de eu ter pertencido a duas turmas ao mesmo
tempo (manhã e tarde) durante um ano. Esta foi
“a solução” encontrada pela
minha mãe para a falta de recursos para pagar
por uma creche aonde eu pudesse ficar no contra turno
enquanto meus pais trabalhavam.
Minha
professora da quarta série, a Dona Zilai, costumava
ser dura e exigente conosco. Dizia que “apenas
a educação poderia pavimentar nosso caminho
para uma vida digna”.
Ela
estava absolutamente certa, em todos os sentidos: nos
objetivos, na filosofia e nos métodos! Assim
como também estão certos os milhares de
professores por todo esse nosso país verde-e-amarelo.
São profissionais dedicados. Pessoas que são
tão importantes para a vida de todos nós
e, ao mesmo tempo tão esquecidos pelas autoridades.
Quem não se lembra de um professor? Eles estão
a maior parte do tempo conosco. Torcem para o nosso
sucesso. Nos levam pela mão. Acreditam em nós
quando todos não conseguem ver além de
uma criança assustada. Eles vêem o nosso
potencial. Pense nisso: não existiriam presidentes,
engenheiros, empresários, astronautas, médicos,
etc, eficientes sem o trabalho de professores eficientes!
Professores tem o poder de criar o futuro. Portanto,
o magistério é a profissão mais
importante de qualquer país sério.
Hoje
em dia eu me orgulho de fazer parte desse grupo. De
fato, embora ser o Primeiro Astronauta Brasileiro seja
algo que está registrado na história do
Brasil, eu me sinto ainda mais orgulhoso de ser chamado
de Professor, do que Astronauta.
Cursei
o antigo ginásio no "SESI 358 - Bauru".
Era uma escola completa, oferecendo além das
aulas tradicionais, várias outras atividades
como práticas desportivas em várias modalidades,
artes, música, etc. Quantas recordações!
A primeira namorada, Luciane, os amigos, as reuniões
conduzidas com todos os alunos na escadaria da escola.
Eu era o presidente do Grêmio Estudantil. Naquela
época, o SESI costumava fornecer até o
material escolar. Num certo dia, no começo do
ano, chegávamos na sala e lá estavam todos
aqueles cadernos e livros, novinhos. Fecho os olhos
e lembro perfeitamente, até hoje, do cheiro de
tinta entre as folhas dos livros. Você consegue
imaginar o quanto aquilo significava para mim? Você
consegue imaginar o que isto significa para uma criança
que não tem condições de comprar
seu material para estudar? Um dia, quem sabe, de alguma
forma, eu terei condições de ter voz ativa
no país e poderei ajudar a TODAS as crianças
brasileiras a terem acesso a uma educação
forte, homogênea e integral. Uma educação
que lhes permita lutar, com honestidade, integridade
e dignidade, por todos os seus sonhos. Um dia...
O
eletricista sonhador
Aos
14 anos senti necessidade de começar a me preparar
para alguma profissão e ajudar no orçamento
de casa, pelo menos com o pagamento das despesas da
minha própria educação. Queria
aprender uma profissão, mas aprender custava
dinheiro que eu, como muitos jovens, não tinha.
Foi
aí que descobri sobre um curso de formação
profissional da Rede Ferroviária Federal (RFFSA)
em parceria com o SENAI. Fiz a inscrição
para o concurso, estudei, fiz os exames e iniciei o
curso de eletricista no "Centro de Formação
Profissional Aurélio Ibiapina".
OK!
Eu era agora um aprendiz de eletricista! Meu primeiro
emprego. Era um bom começo! Ganhava cerca de
meio salário mínimo e tinha carteira assinada.
Com o dinheiro que ganhava, eu podia pagar o curso noturno:
“segundo grau profissionalizante – técnico
em eletrônica” do Liceu Noroeste.
Todos
os dias, meu pai me acordava as 06:30 da manhã.
Tomávamos café juntos (ele sempre fazia
um ótimo café) e seguíamos a pé
conversando sobre "qualquer coisa" pelas ruas
do bairro. Recordo perfeitamente do cheiro do mato molhado
pelo orvalho daquelas manhãs. A voz calma do
meu pai. As coisas que ele me ensinava. Algo tão
difícil hoje em dia: um pai ter tempo para conversar
com o filho.
Ao
chegar no viaduto da rua Azarias Leite, nos despedíamos.
Eu descia para atravessar os trilhos e seguir para as
oficinas na RFFSA enquanto ele prosseguia pelo viaduto
para pegar o trenzinho, a “Coréia”
para o IBC (Instituto Brasileiro do Café).
Na
minha rotina corrida daqueles anos, eu trabalhava e
aprendia a profissão na RFFSA durante o dia,
das 8 às 17 horas. Ao ouvir a sirene de final
de expediente, eu saia dali correndo, literalmente,
para o treinamento de judô no SESI. Treinava por
uma hora e novamente corria, agora para casa. Depois
do banho, partia sem demora para o colégio profissionalizante
do "Liceu Noroeste", onde tínhamos
aulas das 19 às 23 horas. Este foi o meu dia-a-dia
por 3 anos. Sem duvida, foi uma fase muito significativa
em minha vida, especialmente por ter representado o
início "das ações" na
direção dos meus objetivos.
Em
1980, aconselhado pelos pilotos do Aeroclube de Bauru,
resolvi me inscrever para os exames de seleção
da Academia da Força Aérea (AFA). Meu
salário como eletricista em treinamento era suficiente
para pagar os custos do colégio, porém
a participação em um curso preparatório
para as provas da AFA estava completamente fora de alcance
do meu orçamento. A solução veio
na forma de ajuda dos meus professores do colégio,
principalmente o Prof. Izzo que, além de oferecer
orientação nas suas matérias (física
e matemática) nos tópicos relativos aos
exames, também convenceu outros professores a
me ajudarem no restante das matérias. Sou extremamente
grato a todos eles não só por isso, mas
principalmente pelas constantes palavras de incentivo.
O
tempo para estudar, entretanto, era um tanto restrito
devido aos cursos normais do colégio e as atividades
de trabalho nas oficinas da RFFSA. Dessa forma, estudar
dentro de uma locomotiva durante os testes de motor
era uma opção freqüente e ruidosa.
A
carreira militar
O
vestibular da AFA foi como eu esperava: difícil!
Contudo tive a “sorte” de ter estudado o
assunto correto e acabei tendo um bom resultado, sendo
classificado como o segundo colocado no País.
Iniciei
o curso da AFA em Fevereiro de 1981. Eu era então
o "Cadete 81/194 Pontes”, e no ano seguinte
eu teria meu primeiro contato com a instrução
de vôo.
Durante
o intervalo das aulas na Divisão de Ensino (DE)
a visão dos aviões pousando e decolando
da pista do primeiro esquadrão de instrução
aérea era realmente motivadora. Os anos se passaram
na rotina coberta-e-alinhada da vida de cadete. Dificuldades,
sorrisos, espadim, vôos, estudo, muito estudo,
viagens para Bauru nos finais de semana, cabelo curto,
amigos antigos, despedidas e encontros.
Quatro
anos se passaram como se fossem vagões de um
trem veloz. Num belo dia ensolarado de dezembro em 1984
o meu instrutor, o Capitão Reis, literalmente
cravou o brevê de oficial aviador da Força
Aérea em meu peito. O sangue selou uma paixão
pelo vôo que perdura por toda a minha vida. Eu
estava formado! Eu podia voar!
Após
a formatura da AFA, fui promovido ao posto de Aspirante
Aviador e designado para o curso de caça no 2º/5º
Grupo de Aviação no Centro de Aplicações
Táticas e Recompletamento de Equipagens –
CATRE, como era conhecido na época, em Natal-RN
. O curso de um ano foi intenso. Aulas, briefings, vôos,
simuladores, reuniões na sala dos pilotos, etc.
Longos dias, porém extremamente felizes, não
apenas por estar em uma das mais fascinantes atividades
do mundo, mas também pelo ambiente agradável
e de cenário magnífico da cidade de NatalFoi
durante aquele ano que conheci minha esposa, Fátima.
Sem dúvida nenhuma uma das pessoas mais importantes
e influentes em minha vida.
O
vôo do centauro
Depois
de concluir o curso de caça, fui transferido
para o 3º/10º Grupo de Aviação,
em Santa Maria-RS. A possibilidade de ficarmos tão
distantes, eu em Santa Maria e ela em Natal, apressou
a decisão: resolvemos nos casar. O começo
foi difícil. Iniciamos a jornada juntos ainda
bem jovens. Vivíamos em um pequeno apartamento
alugado em Santa Maria. Era praticamente um espaço
vazio. Os móveis foram comprados pouco a pouco,
com o pouco que sobrava. Mas aquele foi apenas o começo.
Ao longo da nossa caminhada, desde aqueles dias de ansiedade
e dúvidas naquele pequeno apartamento até
os dias de hoje, muitos anos depois, passamos por muitas
situações difíceis. Mas também
muitos momentos de extrema felicidade!
O
fato é que, independente dos meus erros e das
minhas fraquezas como pessoa, ou da minha ausência,
devido a minha missão para com o País,
ela sempre esteve aqui, bem do meu lado, não
na frente, não atrás, mas sempre do meu
lado, apoiando da maneira como era possível para
ela. Algumas vezes mesmo sem concordar inteiramente
com o que eu fazia, mas valia o "trabalho de equipe",
e assim chegamos até aqui, juntos! Um tentando
completar as falhas do outro, para o sucesso comum,
com carinho, paz e compreensão.
Nunca
sabemos do futuro e não levamos nada material
dessa vida. Contudo, tenho certeza que as idéias,
o carinho, os momentos bons devem ficar sempre na memória.
Quem sabe talvez possamos até levá-los
conosco para outras dimensão! Por isso, não
importa o que aconteça, ela estará sempre
aqui dentro, comigo, como algo de bom que me faz feliz
e completo como ser humano!
Permaneci
no Esquadrão Centauro, em Santa Maria, durante
pouco mais de três anos. Eu sou o "Centauro
77".
O
trabalho em um esquadrão de caça, onde
a vida de cada um depende literalmente da performance
do outro, é uma experiência realmente enriquecedora
no sentido de trabalho "em equipe", a essência
da nossa vida em sociedade. Daqueles anos de Centauro,
inúmeros momentos ficaram marcados para sempre
em minha memória. Momentos muito felizes como
os churrascos do esquadrão no Recanto do "Quero-Quero",
as competições anuais em Santa Cruz/RJ
e, logicamente, o nascimento de meu primeiro filho,
Fábio. Aquele momento foi mágico. Acompanhei
o parto normal e o segurei ainda com o cordão
umbilical preso ao corpo. De repente, ali estava aquela
criaturinha adorável em minhas mãos, meu
filho! Poucos pais tiveram essa experiência. Difícil
descrever a felicidade de um momento como esse!
Mas
os dias de Centauro não foram apenas alegrias.
Também tivemos momentos tristes que, embora inevitáveis
nesse tipo de atividade, sempre gostaríamos de
ter a chance de evitar. Assim foi a decolagem para "o
grande vôo” do meu grande amigo Geraldo
Brezinski, em Nov/87.
Passos
calculados
Depois
de alguns anos na rotina dos pampas, tudo estava tranqüilo
em minha vida. Eu era um piloto de caça, era
instrutor, a família estava bem, a vida tinha
sua rotina, e eu gostava muito do que eu fazia. Contudo,
lembro bem da minha mãe falando sobre esse tipo
de “calma” há muito tempo atrás.
Ela dizia:
—
Fique atento para quando a calma da situação
tentar convencê-lo a não fazer nada. A
maioria das pessoas deixam-se levar por esse erro. Lembre-se
que o seu progresso na vida é como remar contra
a correnteza. No momento que você para pára
de remar para apreciar a natureza, você está
voltando rio abaixo. Assim, descanse quando necessário,
mas saiba que isso tem um preço.
Dentro
de mim havia aquele fogo pelo conhecimento! Havia ainda
muita coisa a fazer! Eu queria expandir minha carreira.
Além de piloto, eu agora também queria
ser um engenheiro.
Assim,
após uma conversa difícil com o Comandante
do Esquadrão, o Coronel Paulo Cezar, consegui
convencê-lo a autorizar a minha participação
no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica,
o ITA. Mas o desafio parecia muito grande. O vestibular
do ITA é conhecido pela seu nível de dificuldade.
Assim, não havia tempo para perder. Estudei com
afinco por três meses, fiz as provas e fui aprovado.
Ao
mesmo tempo em que eu me dedicava ao estudo e ao meu
ideal de me tornar um profissional mais qualificado,
muitos diziam que eu era louco de tentar uma coisa daquelas
casado e com filho. Mais ainda, alguns "amigos"
da aviação militar levantaram boatos recheados
de duras críticas a meu respeito. Diziam que
eu havia "abandonado" a caça para "me
dar bem" como engenheiro.
Aquela
foi minha primeira aula na matéria chamada "como
ignorar críticas sem fundamento, continuar a
fazer o seu trabalho bem feito, e ter ainda mais sucesso."
Depois, devido ao desenvolvimento acelerado da minha
carreira através da educação continuada
com o meu esforço pessoal, eu tive que usar muitos
dos conhecimentos adquiridos daquela primeira aula,
e ainda tive vários outros laboratórios
da mesma matéria!
Aproveitando
este assunto, aí vão algumas dicas. Se
você é bom no que faz, e é alvo
de críticas, preste atenção nesses
pontos:
-
Primeiro, há que se diferenciar as críticas
construtivas, acompanhadas de sugestões válidas,
feitas por alguém qualificado no assunto e que
está genuinamente interessado no seu aperfeiçoamento,
das críticas vazias, feitas por alguém
sem qualificação adequada, e/ou qualquer
interesse positivo na continuidade do seu sucesso.
-
Segundo, perceba que criticas sempre são parte
integrante do sucesso. Todas as pessoas de sucesso são
criticadas por aqueles que, por algum conflito interno,
sentem-se mal quando percebem que não tem a capacidade
de atingir resultados comparáveis aos seus.
-
Terceiro, profissionais competentes não tem tempo,
ou necessidade de criticar ninguém. A crítica
e a realização são atividades mutuamente
excludentes.
-
Finalmente, lembre-se que a enorme maioria das 6 bilhões
de pessoas do Planeta não ama você, não
sabe nada sobre você ou seus ideais de vida, não
liga para você e não pensa em você,
exceto quando você as incomoda! Isso é
estranho dizer, mas pense um pouco e rapidamente irá
concordar comigo. Essas pessoas não estão
genuinamente interessadas ou preocupadas com o seu bem
estar, com o seu sucesso, ou mesmo com o sucesso de
qualquer organização da qual você
participa. Cerca de 99% do tempo, elas estão
apenas interessadas na própria vida, e em como
poderão ter algum tipo de vantagem pessoal nas
situações em que estão envolvidas.
Portanto,
não perca o seu tempo preocupando-se com o que
dizem ou o que fazem os seus críticos. Isso não
vale a pena.
Ensaios
em vôo
Após
ser aprovado no vestibular do ITA, fui transferido para
o Centro Tecnológico de Aeronáutica –
CTA, como era conhecido na época. Mudamos para
São José dos Campos em Fevereiro de 1989.
Iniciava ali mais um desafio que, dessa vez não
deveria ser vencido apenas por mim. Agora havia um time,
a minha família. Precisaríamos “voar
juntos” e realizar a missão.
O
curso de engenharia no ITA é reconhecidamente
um dos melhores do País, e também um dos
mais exigentes! A importância da participação,
compreensão e apoio da família durante
os cinco anos de curso era essencial. Aqueles foram
anos de muita concentração. Novos conhecimentos,
novas amizades, muitas felicidades, planos e esperanças.
Logo após o Natal, no ano novo de 1990, recebemos
um adorável presente: o nascimento de nossa filha
Ana Carolina. A loirinha não esperou. Ela nasceu
enquanto ainda morávamos no hotel de transito
do CTA. Pagar aluguel em um apartamento fora da base
aérea estava fora do orçamento de tenente.
Assim, moramos mais de dois anos em um quarto de hotel,
enquanto esperávamos pela vaga na lista dos apartamentos
ou das casas militares.
Logo
depois do seu nascimento, em fevereiro de 1991, conseguimos
um apartamento no então recém construído
prédio H-9 A.
Durante
os anos de curso no ITA, a atividade aérea como
piloto militar ficou restrita aos vôos administrativos
de Bandeirante, T-25 e Regente na Divisão de
Operações - DOP do CTA. Basicamente eu
aceitava voar todas as missões que me ofereciam,
bastava ser fora do horário das aulas. Podia
ser domingo, feriado, noite, madrugada, qualquer horário,
qualquer destino. A idéia era “manter a
mão” e as qualificações de
pilotagem. Com essa atitude de sempre estar disponível
para voar, em qualquer horário, mesmo com a rotina
apertada do ITA, eu consegui ser um dos pilotos mais
voados da Divisão em quase todos os anos de curso.
Mas
a junção da experiência operacional
com o conhecimento de engenharia pedia algo mais. Observei
que havia um ótimo “espaço de mercado
profissional” na área de ensaios em vôo.
No inicio daquela atividade no Brasil, na década
de sessenta, havia pilotos de prova que também
eram engenheiros. Contudo, agora só havia a figura
do piloto de provas e do engenheiro “em corpos
diferentes”. Na nova geração não
havia mais nenhum “hibrido”. Aquilo era
uma observação interessante. Assim, no
último ano do curso de engenharia, realizei provas
de seleção para o curso de ensaios em
vôo da Divisão de Ensaios em Vôo
– AEV, do Instituto de Aeronáutica e Espaço,
IAE-CTA. Para quem não sabe, piloto de provas
é um piloto que testa aviões novos e equipamentos
instalados em aviões já em operação.
Certamente envolve muitos riscos, mas também
uma carga enorme de estudo, conhecimento, preparação,
e responsabilidade. Afinal, a maioria dos protótipos
custam dezenas de milhões de dólares!
O
curso teve duração de um ano. Foi o casamento
perfeito entre a teoria de engenharia aeronáutica
e a prática de vôo. Eu era então
um Piloto de Provas!
Aliás,
eu fui o primeiro piloto de provas formado no Brasil
que também era engenheiro formado no ITA e, durante
algum tempo, eu era o único “híbrido”
à disposição da Força Aérea.
Embora eu não soubesse disso antes de começar
o curso, esse fato facilitou missões futuras
e abriu perspectivas para outros pilotos de combate
seguirem o mesmo caminho, isto é, "abandonarem”
a caça ou outras aviações, cursarem
o ITA e depois cursarem o curso de ensaios em vôo.
Hoje em dia isso é um fato comum, e muito bom
para a qualidade dos recursos humanos na Força
Aérea.
Em
plena operação como piloto de provas,
confesso que foi muito interessante olhar para a cara
surpresa daqueles que criticaram a minha decisão
de "abandonar a caça" para ser engenheiro.
Agora, eu não só podia voar todos os aviões
de caça do Brasil, como também tinha uma
função essencial para garantir a segurança
e o desenvolvimento das aeronaves da aviação
de caça e de seus equipamentos, como novos radares,
armamentos, etc.
Embora
não seja muito divulgado, é importante
ressaltar que existem apenas cinco escolas de ensaios
em vôo no mundo. Uma delas e exatamente aqui no
nosso Brasil! Isso sempre foi uma razão de orgulho
para mim, e gostaria que fosse para todo Brasileiro,
pois, apesar de todas as dificuldades e limitações
orçamentárias, somos capazes de manter
uma instituição do calibre do Grupo Especial
de Ensaios em Vôo (nome atual da AEV) em padrão
internacional graças principalmente à
dedicação e profissionalismo de seus integrantes.
Em
minha passagem pela AEV, tive a oportunidade de voar
vários tipos de aeronaves de última geração
da década de 90, como os caças americanos
F-15 Eagle, F-16 Falcon e F-18 Hornet. Também
voei o MIG-29 Fulcrum, na Rússia. Além
disso, também participei de vários projetos
nacionais de grande interesse como o primeiro míssil
ar-ar MAA-1. O seu primeiro lançamento foi realizado
pelo então Maj. Márcio Jordão.
Eu tive o prazer de acompanhar aquele lançamento
como "chase", que é a aeronave que
voa próximo ao avião lançador para
garantir a segurança do mesmo em caso de qualquer
problema, como explosão do míssil, colisão,
apagamento do motor, etc. Minha chance de lançá-lo
veio no dia seguinte. Era o segundo lançamento
daquele equipamento nacional. Voamos na área
da Barreira do Inferno, em Natal, RN. Aquele seria o
segundo de uma série de lançamentos com
sucesso, provando, entre outras coisas, a capacidade
da indústria nacional. Eu sou o "Prova 37"!
Código de chamada rádio que trago comigo
com muito carinho, assim como a lembrança de
cada um dos amigos da AEV.
Rumo
aos Estados Unidos
Em
1996 eu estava no meio do meu mestrado no ITA quando
recebi uma mensagem interessante do alto comando da
FAB, em Brasília. Fui enviado para Mestrado (Master's
Degree em Systems Engineering) na Naval Postgraduate
School – NPS, em Monterey na Califórnia,
EUA. Outro curso, outra língua, outro País.
Para
nós, eu e minha família, um outro desafio.
Lembro bem da sensação quando estávamos
nos aproximando para pouso em Los Angeles. Olhava todos
aqueles prédios e lembrava que ainda teria que
pegar uma conexão para Monterey.
—
O avião está atrasado. Será que
dará tempo?
Olhei
para o lado, vi as crianças dormindo e pensei
— Meus Deus, me ajude! Permita que eles sejam
felizes nessa nova vida.
Interessante
pensar que tudo o que eu tinha de mais precioso estava
ali, dentro daquele avião. Na verdade, estava
ali tudo o que eu tinha literalmente: esposa, 2 filhos,
cinco malas, e um cachorro, o MIG, um pequeno poodle
batizado em homenagem à agilidade do MIG-29!
Pousamos,
fizemos a conexão, quase sem problemas, e finalmente
chegamos em Monterey depois de um curto vôo de
uma aeronave Brasília, durante o qual podíamos
ouvir o MIG latindo sem parar no compartimento de cargas.
Conforme
minhas expectativas, Fátima, Fábio e Carol
superaram todos os problemas iniciais de adaptação
e língua com bastante facilidade, permitindo
que eu novamente me dedicasse com bastante afinco às
atividades de pesquisa. Como resultado, terminei o mestrado
antes do tempo previsto. O objetivo do meu trabalho
de mestrado era aumentar o alcance de detecção
dos sensores infravermelho do sistema de defesa de navios.
Devido aos resultados obtidos, fui convidado pela US
NAVY a permanecer nos Estados Unidos para continuar
minhas pesquisas em nível de Doutorado (PhD)
e aperfeiçoar o sistema de defesa da frota.
A
experiência de vida adquirida pela convivência
em Monterey foi excelente para todos nós. Tivemos
a oportunidade de conhecer muitos lugares, famílias
e pessoas maravilhosas com as quais mantemos excelente
contato até hoje, muitos anos depois!
A
carreira de Astronauta
Em
1997, enquanto eu me dedicava às pesquisas em
Monterey, o Brasil entrou no programa da Estação
Espacial Internacional (ISS), como participante, através
da NASA. Eu não fazia idéia de nada disso!
Pelo acordo, o Brasil teria que produzir na indústria
nacional seis componentes da espaçonave (ISS)
e entregá-las ao consórcio dos 16 países
participantes. A indústria escolhida receberia
o dinheiro correspondente e seria certificada em qualidade
pelo consórcio, entrando na seleta lista de fornecedores
de tecnologia espacial do bilionário mercado
mundial do setor. Em troca das partes nacionais, o Brasil
teria direito a executar experimentos no ambiente de
microgravidade da ISS, que é o melhor já
conseguido pelo homem, promover intercâmbio de
pesquisadores para transferência de tecnologia
e um vôo espacial para a realização
de experimentos de interesse do pais. Para tanto, o
Brasil precisava treinar um astronauta.
Veio
então divulgação da seleção
do primeiro candidato à astronauta brasileiro.
A divulgação foi feita pela Agência
Espacial Brasileira, com colaboração da
Coppe (UFRJ), através de publicação
nos jornais de todo o país de um edital de concurso
público. A seleção era aberta a
todos os brasileiros que tivessem os requisitos exigidos
pelo edital. Isso foi em Maio de 1998. Soube da notícia
através de um e-mail enviado pelo meu irmão
Luiz Carlos, contendo como anexo uma figura escaneada
do recorte do edital publicado no Jornal da Cidade de
Bauru. A princípio, obviamente achei muito difícil
que eu pudesse ser selecionado entre tantos excelentes
candidatos disponíveis. Porém, estava
ali um caminho para tornar realidade algo que até
então era apenas um "sonho distante".
Algo que eu havia imaginado várias vezes durante
tantos vôos noturnos, quando a Lua parecia tão
clara, tão perto, que parecia estar ao alcance
das mãos, bastaria apenas esticar os braços
para fora da cabine do meu avião.
Portanto,
tentar, com todo coração e alma, era absolutamente
necessário! Por que não?!
Preenchi
a papelada. Enviei o FAX cheio de esperanças
e dúvidas. Esperei...esperei...e esperei...
Um
dia, depois de duas semanas de angústia, a resposta
chegou. Veio por fax também. Eu deveria comparecer
ao hospital do CTA para exames. Testes preliminares,
exames médicos, físicos, psiquiátricos
e uma sabatina, em inglês, pela AEB, NASA, Academia
Brasileira de Ciências, etc., se seguiram. Como
disse no final da entrevista de seleção
— Imagine como está se sentindo aquele
garoto aprendiz de eletricista só pelo fato de
estar participando dessa seleção!!
No
mesmo dia da sabatina na AEB, depois de uma espera de
cinco horas, fui informado do resultado final. O anúncio
da minha escolha está entre os momentos de minha
vida que sou capaz de descrever em todos os detalhes,
mas isso é assunto de outro dos meus livros!
Era o início de um novo "capítulo"
em minha vida. Mais um desafio, mais uma missão:
levar a bandeira do Brasil ao espaço pela primeira
vez, mesmo com o sacrifício da própria
vida, se for necessário. Recebi a mensagem “para
levar a Garcia” (se você não conhece
essa expressão, pesquise!) e assim o fiz.
Depois
da seleção no Brasil, ainda tive que passar
por todos os testes junto com os candidatos americanos
na NASA. Como o Brasil participava do programa da ISS
através da NASA, do ponto de vista dos outros
parceiros eu sou, para todos os efeitos, um astronauta
“NASA”. Por essa razão, eu ainda
tive que ser aprovado por todos os critérios
americanos. Uma vez aprovado também pela seleção
americana, mudamos de Monterey para Houston em agosto
de 1998.
Curso
de astronauta
Uma
das conseqüências da minha seleção
foi a necessidade de deixar de exercer as funções
de militar da ativa da Força Aérea para
me dedicar exclusivamente às funções
civis de astronauta, a serviço do Brasil. Devido
ao inicio dos programas espaciais estarem ligados às
forças armadas, muita gente confunde a carreira
militar com a carreira de astronauta. Para falar a verdade,
na época de minha seleção, eu mesmo
achava que as duas eram compatíveis e interligadas.
Depois que entrei na nova função, fui
informado de que os programas espaciais, na NASA, na
AEB e a maioria das outras agências espaciais
do mundo, especialmente nos países signatários
do acordo internacional de uso pacifico do espaço,
são exclusivamente civis.
Assim,
a carreira de Astronauta é função
CIVIL, com muitas atividades de relações
institucionais com o setor político, organizações
internacionais, e outras atividades de caráter
sócio-político que são completamente
incompatíveis com a atividade e regulamentos
militares.
Portanto,
eu sabia que minha carreira militar, e o meu sonho de
um dia receber as estrelas de Brigadeiro do Ar, estavam
terminados, sacrificados pela nova missão pelo
pais. Agora, ao invés de ser mais um piloto militar,
eu era o único Astronauta Brasileiro, e isso
teria um novo peso, uma nova importância, não
só para a ciência, mas especialmente para
a Educação no Brasil. Como astronauta,
eu poderia desenvolver a minha carreira de engenheiro
e pesquisador, e também ser um educador, palestrante
e professor, com o poder de inspirar e motivar milhares
de jovens para também realizarem os seus sonhos
através da educação, da ética
e do trabalho.
As
atividades em Houston eram intensas. Muitos treinamentos,
dificuldades, dúvidas, esforço, sacrifício.
O desafio era solitário. A frente de batalha
era na fronteira das minhas limitações
como ser humano, distante da família, distante
de todos, distante dos limites fisiológicos e
psicológicos que eu achava que tinha. Os dois
primeiros anos foram de curso. Éramos ainda chamados
de “candidatos a astronauta” (ASCAN) naquele
período. Procedimentos, sistemas do ônibus
espacial, sistemas da Estação Espacial,
emergências, mais emergências. Ainda não
está bom. Mais treinamento, mais treinamento.
Finalmente,
em dezembro de 2000, recebi o meu “brevê”
de astronauta na NASA. Eu era então, oficialmente,
o primeiro Astronauta Profissional Brasileiro. Mais
ainda, eu era oficialmente o Primeiro Astronauta Profissional
de nacionalidade única de um país do Hemisfério
Sul do Planeta Terra e também o único
Astronauta de língua portuguesa!
Mas
ainda faltava muita coisa...
Enquanto
isso, no Brasil...
Enquanto
eu me dedicava completamente ao treinamento, na minha
função operacional de astronauta, no Brasil
a execução da parte técnica do
acordo da ISS no INPE ia de mal a pior. A administração
não conseguia coordenar a fabricação
das peças necessárias ao acordo.
O
meu primeiro vôo deveria acontecer em 2001, quando
o Brasil deveria entregar a primeira parte da ISS que
seria construída pela industria nacional, o “Express
Pallet”. A Embraer seria a responsável
pela construção. Não havendo parte
a ser entregue, a missão foi adiada para 2003.
Como astronauta, eu mantinha meu treinamento, estando
pronto para atender à escalação
para vôo no momento que o país determinasse.
Além do treinamento, eu também trabalhava
com o gerenciamento de projeto e os testes de integração
do laboratório Japonês KIBO entre Houston
(NASA) e Tsukuba (JAXA – Agência Espacial
Japonesa), um projeto de 1.3 bilhões de dólares.
Todos os astronautas têm funções
técnico-científicas, além das funções
operacionais. Aliás, essas atividades ocupam
cerca de 90% do nosso tempo.
Em
2002 a Agência Espacial Brasileira oficialmente
desistiu de fabricar as seis peças nacionais
do acordo original de participação do
país na ISS, que dariam um certificado de qualidade
extremamente importante para a indústria brasileira
para exportações de alta tecnologia.
Ao
saber dessa “notícia”, percebi que
eu teria que fazer mais do que as funções
normais exercidas por todos os outros astronautas. Resolvi
que era hora de também “entrar em campo”
na área administrativa. Usar do meu prestigio
público, do conhecimento em gerenciamento de
projetos e das atividades de relações
institucionais junto ao setor político e a imprensa
no Brasil para tentar manter o país no programa
e evitar a vergonha de sermos o único país,
entre os 16 participantes, a não ser capaz de
cumprir sua parte no acordo, algo que, além da
vergonha, seria um péssimo cartão de visitas
internacional para nossas indústrias e centros
de pesquisa.
Deixei
parte do trabalho técnico para o qual havia sido
designado, entre NASA e Japão, e solicitei à
NASA que me designasse para acompanhar a situação
do hardware da participação brasileira,
tanto em relação às negociações,
quanto aos procedimentos de engenharia. Após
alguns meses de trabalho e convencimento de autoridades
no Brasil e nos EUA, a participação brasileira
na ISS começou a ser recuperada. O MCT e a AEB,
entretanto, decidiram cortar 92% do orçamento
do projeto. Mesmo assim, conseguimos negociar com a
NASA, em Washington e manter o Brasil no programa com
uma mudança de nível de participação.
O escopo original da responsabilidade brasileira no
acordo: seis peças com investimento estimado
na indústria brasileira de 120 milhões
de dólares em cinco anos, foi reduzido para 43
pequenas placas adaptadoras com investimento total de
apenas 10 milhões do Programa Espacial Brasileiro
na indústria nacional. Essa redução
de custos de investimento na nossa industria foi necessária,
segundo a administração, para adequar
a necessidade de outros projetos. Grande parcela do
orçamento do programa espacial era destinado
para manter o programa Chinês-Brasileiro de satélites
de Observação da Terra (CBERS), que envolve
centenas de milhões de dólares de investimento
necessário para construir e operar os equipamentos,
que duram, em média, dois anos no espaço.
Apesar
do escopo reduzido, o programa da ISS passou várias
vezes por ser cortado do orçamento. Como resultado
do desinteresse pelo programa por vários setores
que seriam essenciais para a sua condução
adequada, a administração não conseguiu
produzir nenhuma peça da ISS na indústria
nacional. Infelizmente, esse foi o cartão de
visitas que o pais apresentou junto aos outros 15 países
do consórcio, todos eles de grande projeção
no cenário econômico, técnico e
científico do mundo.
O
ano de 2003 foi difícil. Acidente do Columbia
em fevereiro de e o acidente em Alcântara em agosto.
Atrasos operacionais. Tristeza. Trabalhei na investigação
do Columbia. Perdi sete amigos próximos em Houston
e mais 21 no Brasil. Perdi também um pouco mais
da esperança de conseguir cumprir minha missão,
não só com a demora do retorno ao vôo
dos ônibus espaciais, mas também somado
à restrição do número de
vôos e a ausência das partes nacionais.
Em
2004, praticamente sem esperanças de que o Brasil
pudesse cumprir a sua parte, sem mas desculpas viáveis
para apresentar nas reuniões internacionais na
NASA com os outros parceiros, mais ainda sem esperanças
de um vôo espacial ser escalado, resolvi pelo
menos tentar salvar a parte do nome do Brasil no cenário
internacional do programa. Lembrando do meu tempo de
aluno do SENAI, e conhecendo a excelente infra-estrutura
da instituição, resolvi pedir ajuda ao
SENAI-SP/FIESP. Numa reunião de pouco mais de
15 minutos, eles disseram:
—
Esse programa é muito importante para o Brasil
e para as nossas indústrias. É uma vergonha
essa situação de vexame em que nos encontramos.
Nós iremos construir os protótipos e,
se for necessário, todas as peças, sem
nenhum custo para a AEB! Fazemos isso pelo Brasil! E
ficamos muitos felizes de poder trabalhar com você,
um ex-aluno do SESI e do SENAI-SP e um exemplo para
todos os brasileiros!
Contagem
reiniciada
Aquilo
deu novo ânimo a todos que acreditavam na importância
de proteger o nome do Brasil no programa, como o Engenheiro
Petrônio Souza do INPE. Agora seria uma questão
apenas da AEB assinar um convênio com o SENAI-SP
e interligá-los com a NASA e com o IFI-CTA para
que tudo funcionasse (o Diretor do INPE, contrário
à participação do Brasil na ISS,
já havia descartado o programa do seu elenco
de projetos em 2003). O Embaixador Pimentel, Cônsul
Brasileiro em Houston, nos auxiliou muito nos tratos
diplomáticos com a administração
da NASA durante todos os períodos de dificuldades.
Agora, com o programa liderado pela AEB, com a participação
do SENAI e do IFI-CTA, eu já não tinha
tanta vergonha de andar pelos corredores do prédio
1, onde fica a administração técnica
da ISS da NASA em Houston. A AEB determinou que a sua
gerência do projeto da ISS coordenasse todo o
processo.
O
tempo passou. Reuniões técnicas e mais
reuniões técnicas. Agora havia o atraso
do Departamento de Estado Americano na analise e aprovação
da participação do SENAI na parte técnica
do projeto, com o conseqüente repasse dos dados
técnicos do projeto das placas adaptadoras da
NASA para os engenheiros e técnicos do SENAI.
No final do ano eles aprovaram a entrada do novo parceiro
da AEB. Agora só faltava a “luz verde”
da AEB para o SENAI começar a construção
dos protótipos e das pecas, se fosse necessário.
Essa
decisão não aconteceu, porém, em
2005 a AEB tomou uma decisão surpreendente, que
me deixou extremamente feliz: realizar a Missão
Centenário em 2006. A missão teria os
seguintes objetivos:
-
Realizar experimentos nacionais em microgravidade e
assim fomentar essa área da ciência no
Brasil,
-
Promover o programa espacial brasileiro, marcado negativamente
pelo acidente de Alcântara e sem nenhum projeto
de projeção pública,
-
Motivar milhões de jovens estudantes em todo
o Brasil para as carreiras de Ciência e Tecnologia,
-
Criar a maior homenagem internacional ao Centenário
do vôo histórico de Santos Dumont.
A
missão seria possível utilizando a participação
brasileira na ISS, mas teria de ser feita através
do outro parceiro majoritário, a Rússia,
visto a impossibilidade operacional dos ônibus
espaciais americanos devido ao atraso nos vôos
com o acidente do Columbia e a ausência das partes
brasileiras no processo. Eu seria o tripulante da Missão.
Caso eu tivesse qualquer problema, a Missão Brasileira
seria realizada normalmente pelo Cosmonauta Russo Sergei
Volkov.
Segui
para a Rússia em outubro de 2005. Na frente outro
grande desafio: aprender todos os sistemas da espaçonave
de transporte Russa, o Soyuz, e dos módulos russos
da ISS em menos de seis meses. Lembre-se que, sendo
um astronauta especialista de missão do “core”
da NASA, além de realizar os experimentos nacionais
e ajudar em mais 82 experimentos de outros países
sendo realizados na ISS na data do meu vôo, eu
também teria que fazer manutenção
e reconfigurar os sistemas da espaçonave. O tempo
de treinamento de 5 meses seria um recorde para um astronauta
profissional. Além disso, como se isso já
não fosse uma tarefa enorme, em paralelo com
o treinamento técnico nos primeiros três
meses, eu teria também que aprender a língua
russa o suficiente para passar nos exames orais e operar
com segurança todos os sistemas das espaçonaves.
Se eu não fosse capaz de passar nos testes, o
meu backup, o cosmonauta Sergei Volkov, assumiria a
missão brasileira, e eu teria falhado na minha
obrigação, recebida em junho de 1998,
com o Brasil.
A
pressão era enorme. A família ficaria
em Houston. Eu os veria novamente apenas por meia hora
no dia anterior à decolagem da Missão,
no Cazaquistão.
O
treinamento foi difícil, exigiu novamente todas
as minhas habilidades ao limite.\
Mas...
no final... Eu Venci! Vencemos juntos! Todos os brasileiros
venceram!
Cumpri
a minha missão, levei a “mensagem a Garcia”,
e o coração Brasileiro decolou para o
espaço no dia 29 de Março de 2006 às
23:30 (horário no Brasil)!
O
retorno à Terra
Depois
de dez dias no espaço e dez dias de recuperação
intensiva no hospital em Moscou, eu fui liberado para
visitar o Brasil.
A
missão da AEB cumpriu todos os seus objetivos
com louvor. Aliás, muito além das expectativas
da própria AEB. A parte operacional, minha parte,
foi cumprida sem qualquer falha de procedimento. O povo
Brasileiro vibrou com a missão. O sentimento
de orgulho nacional foi enorme. A Bandeira do Brasil
chegou ao espaço pela primeira vez nas mãos
de um Brasileiro. E foram mãos simples! Não
de um privilegiado de berço, não de um
superdotado de inteligência ou talentos, não
de alguém protegido pela política, mas
nas mãos de um filho de servente, um menino pobre
como tantos nesse nosso país, um sonhador que
teve na educação e no sacrifício
pessoal as armas para vencer na vida e carregar nas
costas o peso de representar uma nação
inteira.
Após
a missão, o Comando da Aeronáutica oficializou
a minha transferência do serviço ativo
militar para a reserva, de forma que eu continuasse
normalmente com as atividades da função
civil de astronauta que já executava desde 1998.
Isso é um evento comum da carreira de astronautas
de origem militar em todos os países desenvolvidos
devido às incompatibilidades da função
civil de astronauta com o regulamento militar. Por exemplo,
todos os astronautas e cosmonautas que estiveram comigo
no espaço e que eram militares, também
já tinham sido, ou foram, transferidos para a
reserva.
Logo
após as comemorações no Brasil,
retornei ao Johnson Space Center, em Houston, tentando
salvar novamente a participação brasileira
da expulsão do programa, visto que a NASA já
não podia esperar pelas peças Brasileiras.
Todo o atraso não podia mais ser tolerado no
cronograma dos vôos e as partes que seriam de
fabricação nacional seriam passadas para
a indústria americana. Foi um período
terrível de negociações internacionais.
Finalmente, depois de muita conversa com os representantes
da NASA, conseguimos retomar os procedimentos técnicos.
Infelizmente,
no final de 2006, frustrados com a administração
do programa no Brasil, a NASA colocou a participação
brasileira em um estado “congelado”, que
aguarda definições desde então
a partir das negociações da administração
AEB e Ministério das Relações Exteriores,
do lado do Brasil, com a NASA em Washington-DC e o Departamento
de Estado, do lado americano. Nós, da parte técnica,
aguardamos, ainda, as decisões da parte política
e administrativa para fazermos o nosso trabalho.
Ontem,
hoje e amanhã
Independente
do estado atual da participação no Brasil
na ISS, a partir da missão Centenário
a minha carreira e atividades profissionais se expandiram
muito. Hoje tenho inúmeras funções
e me sinto muito bem com a capacidade de contribuir
em diversos setores, simultaneamente, para o desenvolvimento
do meu País.
Uma
das melhores sensações que podemos ter
é sentir o prazer de ter cumprido bem as missões
que recebemos da vida.
Obviamente,
eu não sei a continuação dessa
história, eu não sei sobre o futuro, mas
sei muito bem sobre meus objetivos e a minha vontade.
Enquanto eu puder respirar, continuarei simplesmente
seguindo meu coração, meus sonhos, meus
princípios de menino do interior. Eles não
são novos, começaram há muito tempo
atrás naquelas longas caminhadas das manhãs
frias com o meu pai, na poeira levantada pelos motores
dos NA T-6 da Esquadrilha da Fumaça, no cheiro
de combustível dos hangares, no cenário
maravilhoso do tapete branco das nuvens acima das tempestades,
na serenidade da visão do nosso Planeta azul,
no carinho e no conselho das pessoas que amei na vida.
Não
sei por quanto tempo ainda vou permanecer nesta Terra,
nesta dimensão, mas enquanto estiver por aqui,
vou continuar com a minha missão de vida. Cada
vez mais crianças terão educação,
saúde e felicidade. Por enquanto, enquanto vivo,
posso falar da minha história, e tentar motivar
pessoas que podem conversar comigo pessoalmente, nas
minhas palestras, nas aulas, eventos, reuniões,
e nas consultas de coaching, em muitos lugares e eventos
pelo mundo, em qualquer lugar, na vida.
Portanto,
em essência, meus ideais de vida são simples:
ser útil para o maior número de pessoas
possível, trazer otimismo e bem estar, ser feliz
e espalhar felicidade e sucesso. Um dia, finalmente,
poderei partir e abraçar Aquele que nunca me
abandonou. Depois desse dia, ficarão as idéias
na memória, na atitude, no comportamento, e na
vida de muitos.
Estátuas
não duram para sempre, homenagens também
são esquecidas, mas idéias perduram para
a eternidade, e podem despertar o espírito da
"boa luta" em cada uma das pessoas que se
aventurarem a "ser", serem humanos, serem
parte de Deus, serem livres, serem felizes!
Eu
desejo que as minhas idéias, de alguma forma,
independentemente das dificuldades da situação
atual, possam fazer decolar o “Fernão Capelo
Gaivota” que existe dentro de VOCÊ! Que
você voe rápido! Que você voe alto!
Que você voe para os seus sonhos! É possível!
Acredite nas suas asas!
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