|
1963-1965:
A Passagem de vinda
Era
uma noite como qualquer outra, dia 11 de março
de 1963. O cheiro da noite e o barulho das crianças
brincando na calçada atestavam a tranqüilidade
que Bauru possuía entre tantas cidades do interior
de São Paulo. A calma da casa na Rua Comendador
Leite 1-23 de repente se transforma em preocupação
nas palavras de minha mãe.
Vergílio, acho que está na hora. Vá
e chame a parteira.
Sem
demora lá foi meu pai a procura daquela senhora
que tantos já havia trazido para este mundo sem
problema algum.
Certo, boa estatística, mas, Senhor, por favor,
nos ajude nesse parto também pensava
meu pai enquanto caminhava apressadamente pelas ruas
do Jardim Bela Vista.
Não
era longe por certo, mas aquela distância nunca
pareceu tão grande. Uma hora depois lá
estavam eles. Esquenta bastante água, tire as
crianças daqui, prepare alguns panos...reze bastante.
Longos momentos depois, nasci, finalmente! Meus irmãos
espiavam pela fresta da parede de madeira.
Olha o pezinho dele! dizia minha irmã
disputando espaço com meu irmão pelo melhor
ângulo. Eu estava feliz...com certeza após
a passagem de vinda! Afinal...eu estava aqui!
1965-1967:
A Janela do Quarto
Difícil
recordar detalhes de nossa primeira infância.
Talvez alguns sons, imagens confusas numa cabecinha
ainda tentando reconhecer e se organizar. Minha irmã
cuidava de mim enquanto meus pais trabalhavam fora.
Acho que cuida até hoje de certa forma. Fecho
os olhos tentando recordar alguma coisa. Lembro das
madeiras do chão da sala. Sempre enceradas e
brilhando. Será aliás que se acumulava
entre as pranchas e que me ajudavam a fixar alguns animais
de papel que eu cuidadosamente recortava. Elefantes,
cavalos, coelhos, do papel criavam vida própria
na minha imaginação.
Um
momento...lembro de um outro lugar, um chão coberto
de palha de arroz e muita gente, muitas mesas...Pego
o telefone e ligo para minha irmã. Ela me diz
que sim, houve uma festa de casamento da nossa vizinha
do outro lado da rua. Havia muita gente, muitas mesas
e palha de arroz no chão. Então é
possível lembrar!
E cheiro de madeira, porque me recordo disso?
eu pergunto a ela.
Certamente vindo da serraria que havia no prédio
logo atrás da nossa casa. Você devia ter
uns 5 anos apenas.
OK! Eu agora acredito que é possível lembrar.
Tento
me concentrar mais...mais para o passado.
A memória é azul...parte de baixo não.
Parece uma construção.
Ela
para por uns instantes.
A janela!...Você está lembrando da janela
do seu quarto quando você era bebê. Seu
berço ficava de frente para a janela e você
podia ver o céu e um pedaço do muro!...Você
passava horas, tranqüilo, apenas olhando para aquela
janela...olhando para o céu.
Senti
uma sensação estranha ao ouvir aquilo.
Será que conseguimos "voltar no tempo"
e lembrar até do tempo anterior ao nascimento?
Tentei um pouco mais, mas nada parecia fazer sentido.
Talvez necessitasse maior concentração...ou
autorização.
1967-1969:
Minha Família
Bom
lembrar das coisas da infância, dos lugares, dos
eventos...mas nada seria igual sem as pessoas...sem
a família. Meu pai, seu Vergílio era servente
do Instituto Brasileiro do Café. Minha mãe
Dona Zuleika, era escriturária da Rede Ferroviária
Federal. Meus pais, meus mestres! Gosto sempre de dizer
que, apesar de ter estudado praticamente toda a minha
vida para atingir os "graus" de formação
acadêmica, todas as coisas mais importantes que
aprendi até hoje foram ensinadas por eles, a
quem eu devo simplesmente tudo o que sou como pessoa.
Ambos já se foram dessa dimensão. Mas
tenho certeza que, seja lá em qual dimensão
estiverem, os dois ainda olham por mim e sabem muito
bem do orgulho que eu sempre tive e tenho por eles,
do orgulho de poder chamá-los de "meus pais."
Às
vezes, nos momentos mais difíceis da minha vida,
ainda ouço suas vozes me acalmando no meio da
tempestade, aquele sussurro tênue, mas que fala
alto ao coração, e que me deseja tudo
de bom, e me diz para ter paciência e nunca desistir
de amar e ajudar as pessoas, todas elas, as que me querem
bem e também aquelas que só querem me
prejudicar, pois, como dizia o "seu" Vergílio,
a minha atitude tem de refletir os meus valores e não
o comportamento de outras pessoas para comigo.
Um
dia nos veremos novamente, certamente sem as preocupações
e as dificuldades desse mundo.
Meu
irmão, Luiz Carlos, e a minha irmã, Rosa
Maria, ainda vivem em Bauru. Longe daqui, mas perto
do coração e ainda com uma grande influência
em minha vida. É bom esse sentido de família,
essa ligação forte de carinho e compreensão
mútua. A família sempre foi para mim algo
de extrema importância. Acredito ser a estabilidade
familiar o primeiro passo, a pedra fundamental, para
o crescimento do indivíduo em todos os aspectos.
Agradeço muito a Deus pela oportunidade de conviver
com pessoas tão maravilhosas. Sinto pena daqueles
que vivem nesse mundo carregando um pesado fardo de
sentimentos ruins contra outras pessoas, algumas vezes
contra os próprios pais, os próprios irmãos
e, em muitos casos, tão orgulhosos para pedir
perdão e dar uma chance para a própria
felicidade.
1969-1970:
O Sonho de Voar
Vivi
o início de minha vida ali, brincando descalço
pela Rua Comendador Leite. Mais tarde mudamos para a
rua Beiruth, também no Jardim Bela Vista, onde
passei grande parte de minha infância, bastante
feliz, diga-se de passagem.
Fácil
lembrar daquele tempo. Aliás, sou repleto de
boas lembranças da vida de cidade de interior,
como "jogar bola" na chuva, nadar no "rio
Batalha", comer frutas "do pé",
etc. Entre tantas coisas, com certeza alguns momentos
daquela época também ficaram ainda mais
marcados, com todos seus detalhes, registrados pela
emoção, na percepção de
um garoto de 9 anos: a morte do meu avô Francisco
que morava conosco, a chegada do homem a Lua e o Brasil
vencendo a copa no México. Como tudo na vida,
uma mistura de fatos bons e ruins. Crescemos assim,
aprendemos assim.
Outras
grandes lembranças foram por conta das visitas
ao Aeroclube de Bauru para ver a Esquadrilha da Fumaça
voando em elegantes North American T6. Lembro também
das visitas à Academia da Força Aérea,
em Pirassununga, onde meu tio, na época o Sargento
Oswaldo Canova, servia como membro da equipe de manutenção
de aeronaves da esquadrilha.
Decolava
ali, entre a poeira levantada pelos motores dos T/6
no estacionamento do aeroclube de Bauru e o cheiro de
combustível de aviação nos hangares
da AFA, o sonho de voar que me sustenta nessa jornada
até hoje.
O
meu ideal começava a criar asas!
1970-1977:
Escola Pública
Meus
primeiros anos de escola foram no "EEPG Lourenço
Filho" e no "EEPG Francisco Antunes"
onde cursei o primário. Uma peculiaridade daquela
época era o fato de eu ter pertencido a duas
turmas ao mesmo tempo (manhã e tarde) durante
um ano. Esta foi a solução
encontrada para a falta de recursos para pagar por uma
creche aonde eu pudesse ficar no contraturno enquanto
meus pais trabalhavam.
Minha
professora, Dna. Zilai, no Lourenço Filho, costumava
ser dura e exigente conosco. Dizia que apenas
a educação poderia pavimentar nosso caminho
para uma vida digna.
Ela
estava certa, em todos os sentidos: nos objetivos, na
filosofia e nos métodos! Assim como estão
os milhares de professores por todo esse nosso país.
Profissionais dedicados que são tão importantes
para a nossa vida. E ao mesmo tempo tão esquecidos
pelas autoridades.
Quem
não se lembra de um professor? Eles estão
a maior parte do tempo conosco. Torcem para o nosso
sucesso. Nos levam pela mão. Acreditam em nós
quando todos não conseguem ver além de
uma criança assustada. Eles vêem o nosso
potencial. Não existiriam presidentes, engenheiros,
empresários, astronautas, médicos, etc,
eficientes sem o trabalho de professores eficientes!
Professores tem o poder de criar a visão do futuro.
O
Magistério é a profissão mais importante
de qualquer país sério. Hoje em dia eu
me orgulho de fazer parte desse grupo. De fato, embora
ser o Primeiro Astronauta Brasileiro seja algo que está
registrado na nossa história do Brasil, eu me
sinto mais orgulhoso de ser chamado de Professor, do
que Astronauta.
O
ginásio cursei no "SESI 358 - Bauru".
Era uma escola completa, oferecendo além das
aulas tradicionais, várias outras atividades
como práticas desportivas em várias modalidades,
artes, música, etc. Quantas recordações!
A primeira namorada, Luciane, os amigos, as reuniões
que conduzia com todos os alunos na escadaria da escola.
Eu era o presidente do Grêmio Estudantil.
Naquela
época, costumavam dar até o material escolar.
Num certo dia, no começo do ano, chegávamos
na sala e lá estavam os cadernos e os livros,
novinhos. Fecho os olhos e lembro perfeitamente, até
hoje, do cheiro de tinta entre as folhas dos livros.
Você consegue imaginar o quanto aquilo significava
para mim? Você consegue imaginar o que isto significa
para uma criança que não tem condições
de comprar seu material para estudar?
Um
dia, de alguma forma, eu terei condições
de ter voz ativa no país e poderei ajudar a TODAS
as crianças brasileiras a terem acesso a uma
educação forte, homogênea e integral.
Uma educação que lhes permita lutar, com
honestidade, integridade e dignidade, por todos os seus
sonhos. Um dia...
1977-1984:
Dos "trilhos de ferro" dos trens para as "trilhas
de condensação" dos aviões
Aos
14 anos senti necessidade de começar a me preparar
para alguma profissão e auxiliar no orçamento
de casa, pelo menos com o pagamento de minhas despesas
da minha própria educação. Queria
aprender profissão, mas aprender custava dinheiro
que eu, como muitos jovens, não tinha.
Descobri
que havia um curso de formação profissional
da Rede Ferroviária Federal em parceria com o
SENAI. Fiz a inscrição para o concurso,
estudei, fiz os exames e iniciei o curso de eletricista
no "Centro de Formação Profissional
Aurélio Ibiapina".
Eu
era um aprendiz de eletricista! Era um bom começo!
Ganhava cerca de meio salário mínimo e
tinha carteira assinada. Com o dinheiro que ganhava,
eu podia pagar o curso noturno: segundo grau profissionalizante
técnico em eletrônica!
Meu
pai me acordava as 06:30 da manhã, tomávamos
café juntos (ele sempre fazia um ótimo
café) e seguíamos a pé conversando
sobre "qualquer coisa" até o viaduto
da Rua Azarias Leite. Recordo o cheiro do mato molhado
pelo orvalho daquelas manhãs. A voz calma do
meu pai. As coisas que ele me ensinava. Algo tão
difícil hoje em dia: um pai ter tempo para conversar
com o filho.
Do
viaduto, nos despedíamos. Eu descia para atravessar
os trilhos e seguir para as oficinas na RFFSA enquanto
ele prosseguia pelo viaduto para pegar o trenzinho para
o IBC (Instituto Brasileiro do Café).
Eu
trabalhava e aprendia a profissão na RFFSA durante
o dia (das 8h às 17h). Saia dali correndo (literalmente)
para o treinamento de Judô no SESI. Treinava por
uma hora e corria (literalmente algumas vezes) para
o colégio profissionalizante no "Liceu Noroeste"
(das 19h às 23h). Esta
foi a minha rotina por 3 anos. Uma fase muito significativa
em minha vida, especialmente por ter representado o
início "das ações" na
direção dos meus objetivos.
Em
1980 me inscrevi para os exames de seleção
da AFA. Meu salário como eletricista em treinamento
era suficiente para pagar os custos do colégio,
porém a participação em um curso
preparatório para as provas da AFA estava fora
de alcance do orçamento. A solução
veio na forma de ajuda dos meus professores do colégio,
principalmente o Prof. Izzo, que além de oferecer
orientação nas suas matérias relativas
aos exames, também me emprestou todos os livros
necessários. Sou extremamente grato a todos eles
não só por isso, mas principalmente pelas
constantes palavras de incentivo.
O
tempo para estudar, entretanto, era um tanto restrito
devido aos cursos normais do colégio e as atividades
de trabalho nas oficinas da RFFSA. Dessa forma, estudar
dentro de uma locomotiva durante teste de motor era
uma freqüente (e ruidosa) opção.
Os exames da Academia foram como eu esperava, muito
difíceis. Contudo dei a sorte de ter estudado
o assunto correto e acabei tendo um bom resultado, sendo
classificado como o segundo colocado no País.
Iniciei
o curso da AFA em Fevereiro de 1981. Eu era então
o "Cadete 81/194 Pontes, e em breve (no ano
seguinte) teria meu primeiro contato com a instrução
de vôo.
Durante
o intervalo das aulas na Divisão de Ensino -
DE a visão dos aviões pousando e decolando
eram realmente motivadoras. Os anos se passaram na rotina
coberta-e-alinhada do cadete. Dificuldades, sorrisos,
espadim, vôos, estudo, muito estudo, viagens para
Bauru nos finais de semana, cabelo curto, amigos antigos,
despedidas e encontros.
Um
belo dia de dezembro em 1984 o meu instrutor, o Cap.
Reis, literalmente cravou o brevê de oficial aviador
da Força Aérea em meu peito. O sangue
selou uma paixão pelo vôo que perdura por
toda a minha vida. Eu estava formado! Eu podia voar!
1984
- 1989: Piloto de caça!... E papai.
Após
a conclusão do curso na AFA fui designado para
o curso de caça no 2/5 Grupo de Aviação
no Centro de Aplicações Táticas
e Recompletamento de Equipagens - CATRE (como era conhecido
na época) em Natal-RN . O curso foi intenso com
duração de um ano. Aulas, briefings, vôos,
simuladores, reuniões na sala dos pilotos, etc.
Longos dias, porém extremamente felizes, não
apenas por estar em uma das mais fascinantes atividades
do mundo, mas também pelo ambiente agradável
e de cenário magnífico da cidade de Natal.
Foi
durante aquele ano que conheci minha esposa Fátima.
Sem dúvida nenhuma uma das pessoas mais importantes
e influentes em minha vida. Iniciamos a vida juntos
bem jovens. Um pequeno apartamento alugado, praticamente
vazio. Os móveis foram comprados pouco a pouco,
com o pouco que sobrava. Passamos muitas situações
difíceis ao longo de todos esses anos. Muitas
boas também! Mas, independente dos meus erros
e das minhas fraquezas como pessoa, ou da minha ausência,
devido a minha missão para com o País,
ela sempre esteve aqui, bem do meu lado, não
na frente, não atrás, mas sempre do meu
lado, apoiando da maneira como era possível para
ela. Algumas vezes mesmo sem concordar inteiramente
com o que eu fazia, mas valia o "trabalho de equipe",
e assim chegamos até aqui, juntos! Um tentando
completar as falhas do outro, para o sucesso comum,
com carinho, paz e compreensão. Nunca
sabemos do futuro e não levamos nada material
dessa vida. Contudo, tenho certeza que as idéias,
o carinho, os momentos bons devem ficar na memória,
talvez possamos até levá-los conosco!
Por isso, não importa o que aconteça,
ela estará sempre aqui dentro, comigo, como algo
de bom, para sempre!
Em
1986, fui transferido para o 3/10 Grupo de Aviação
"Esquadrão Centauro" em Santa Maria-RS.
Permaneci naquele esquadrão durante três
anos e alguns meses. Eu sou o "Centauro 77".
O trabalho em um esquadrão de caça, onde
a vida de cada um depende literalmente da performance
do outro, é uma experiência realmente enriquecedora
no sentido de trabalho "em equipe" (essência
da vida em sociedade).
Daqueles
anos de Centauro, inúmeros momentos ficaram marcados
para sempre em minha memória. Momentos muito
felizes como os churrascos do esquadrão no Recanto
do "Quero-Quero", as competições
anuais em Santa Cruz/RJ e, logicamente, o nascimento
de meu primeiro filho Fábio. Eu acompanhei o
parto normal e o segurei ainda com o cordão umbilical
preso ao corpo. Poucos pais tiveram essa experiência.
Difícil descrever a felicidade de um momento
como esse!
Por
outro lado, também tivemos alguns tristes momentos
os quais, embora inevitáveis nesse tipo de atividade,
sempre gostaríamos de ter a chance de evitar.
Assim foi a decolagem para "o grande vôo
do meu grande amigo Geraldo Brezinski, em Nov/87.
1989-1994:
Decolagens, Pousos e Cálculos
Estava
tudo tranqüilo em minha vida. Eu era um piloto
de caça, era instrutor, a família estava
bem, a vida tinha sua rotina, e eu gostava muito do
que eu fazia. Contudo, lembro bem da minha mãe
falando sobre esse tipo de calma há
muito tempo atrás. Ela dizia:
Fique atento para quando a calma da situação
tentar convencê-lo a não fazer nada. A
maioria das pessoas deixam-se levar por esse erro. Lembre-se
que o seu progresso na vida é como remar contra
a correnteza. No momento que você para pára
de remar para apreciar a natureza, você está
voltando rio abaixo. Assim, descanse quando necessário,
mas saiba que isso tem um preço.
E
dentro de mim havia aquele fogo pelo conhecimento! Havia
ainda muita coisa a fazer!
Assim,
após uma conversa difícil com o Comandante
do Esquadrão, Cel. Paulo Cezar, que teria que
ser convencida a me deixar sair da aviação
de caça para me dedicar à engenharia,
em Agosto de 1988 eu enviei meu requerimento para participar
do vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica,
ITA. Estudei por alguns meses. Em Dezembro fiz o vestibular
e fui aprovado.
Todos
diziam que eu era louco de tentar uma coisa daquelas
casado e com filho. Mais ainda, alguns "amigos"
da aviação levantaram duras críticas
a mim por eu ter "abandonado" a caça
para "me dar bem" como engenheiro.
Aquela
foi minha primeira aula na matéria "como
ignorar as críticas sem fundamento, continuar
a fazer o seu trabalho bem feito e ter ainda mais sucesso."
Ao longo da minha carreira, graças ao meu sucesso,
eu tive que usar muitos dos conhecimentos dessa aula,
e ainda tive várias reedições do
mesmo assunto! (risos)
Se
você é bom no que faz e sofre com as críticas,
preste atenção nisso:
Primeiro
há que se diferenciar entre críticas construtivas
acompanhadas de sugestões válidas, que
são feitas por alguém qualificado no assunto
e que está genuinamente interessado no seu aperfeiçoamento,
das críticas vazias, feitas por alguém
sem qualificação ou qualquer interesse
positivo na continuidade do seu sucesso.
Lembre-se
que, a enorme maioria das 6 bilhões de pessoas
do Planeta não ama você, não liga
para você e não pensa em você no
seu dia-a-dia (exceto quando você as incomoda)!
Isso é estranho dizer, mas pense um pouco e rapidamente
irá concordar comigo. Essas pessoas não
estão genuinamente interessadas ou preocupadas
com o seu bem estar, com o seu sucesso, ou mesmo com
o sucesso de qualquer organização (embora
críticos adoram usar isso como justificativa
para a sua fraqueza pessoal em forma de "opiniões
contrárias"). Cerca de 99% do tempo, essas
pessoas estão apenas interessadas na própria
vida, e em como elas podem ter vantagem pessoal em alguma
coisa. Isso é especialmente verdade para aquelas
pessoas que criticam você e o seu trabalho. Elas
não gostam de você, e muito menos do seu
sucesso! Isso as incomoda quando lembram, ou são
lembradas, de vez em quando, por alguma razão,
que você conseguiu, e elas nunca terão
capacidade de "chegar lá" também!
Portanto,
não perca o seu tempo se preocupando com o que
dizem ou fazem os seus críticos. Eles são
insignificantes. Isso é pura perda de tempo.
Pense
assim: a crítica faz parte do meu sucesso! Ela
é a prova de que eu sou muito bom...e incomodo
por isso!
Profissionais
excelentes não tem tempo, ou necessidade de criticar
ninguém. A crítica e a realização
são atividades mutuamente excludentes. Quem critica
alguma coisa, o faz porque precisa achar alguma maneira
para aliviar o sentimento de incompetência que
surge dentro dele (ou dela) quando ele observa, ou é
informado, do sucesso de outra pessoa. É preciso,
de alguma forma, dentro da cabeça de um crítico,
achar qualquer coisa, rápido, para transformar
aquela pessoa de sucesso em algo pior, algo que não
pareça tão bom e perfeito, algo que pareça
mais com a sua própria mediocridade, com as suas
próprias fraquezas. Essa é a verdadeira
razão da crítica. Lembre-se disso se algum
dia você tiver a tendência ou o desejo de
criticar alguém. Olhe primeiro para dentro de
você. Trabalhe para o seu sucesso, elogie as conquistas
de outras pessoas e aprenda com o sucesso.
Após
ser aprovado no vestibular do ITA, eu fui transferido
para o Centro Tecnológico de Aeronáutica
CTA (como era conhecido na época). Mudamos
para São José dos Campos em Fevereiro
de 1989. Iniciava ali mais um desafio. Não era
apenas estudar e passar. Havia um time (uma família)
a voar em equipe naquela missão.
O
curso de engenharia no ITA é reconhecidamente
um dos melhores do País (e também um dos
mais exigentes!). A importância da participação,
compreensão e apoio da família durante
os cinco anos de curso era essencial.
Foram anos de bastante concentração. Novos
conhecimentos, novas amizades, muitas felicidades, planos
e esperanças.
Logo
após o Natal, no ano novo de 1990, recebemos
um adorável presente: o nascimento de nossa filha
Ana Carolina. A loirinha não esperou que mudássemos
para uma casa, ou apartamento, na base. Depois de dois
anos morando em um quarto do hotel da base enquanto
esperávamos na fila das casas, ela nasceu ali
mesmo! Pagar aluguel fora da base era fora do orçamento
de Tenente.
Finalmente,
em fevereiro de 1991 conseguimos um apartamento no então
recém construído prédio H-9A!
O
vôo durante aqueles anos ficou restrito aos vôos
administrativos de Bandeirante, T-25 e Regente na Divisão
de Operações - DOP do CTA.
1994
- 1996: Piloto de Provas
Mas
a junção da experiência operacional
com o conhecimento de engenharia pedia algo mais. No
último ano do curso de engenharia, realizei provas
de seleção para o curso de ensaios em
vôo da Divisão de Ensaios em Vôo
AEV, do Instituto de Aeronáutica e Espaço,
IAE-CTA.
O
curso teve duração de um ano. Foi o casamento
perfeito entre a teoria de engenharia aeronáutica
e a prática de vôo. Eu era então
um Piloto de Provas! Foi interessante olhar para a cara
daqueles que criticavam a minha decisão de "abandonar
a caça" para ser engenheiro. Agora, como
piloto de provas, eu não só podia voar
todos os aviões de caça do Brasil, como
também era uma função essencial
para garantir a segurança e o desenvolvimento
das aeronaves da aviação de caça
e de seus equipamentos (novos radares, armamentos, etc).
Para
quem não sabe, piloto de provas é um piloto
que testa aviões novos e equipamentos instalados
em aviões já em operação.
Certamente envolve muitos riscos, mas também
uma carga enorme de estudo, conhecimento, preparação,
e responsabilidade. Afinal, a maioria dos protótipos
custam dezenas de milhões de dólares!
Algo
interessante também aconteceu naquela época:
eu fui o primeiro piloto de provas formado no Brasil
que também era engenheiro formado no ITA. Até
então na Divisão de Ensaios em Vôo,
havia apenas dois grupos separados: engenheiros
de prova e pilotos de prova. Durante algum tempo, eu
era o único híbrido a disposição
da Força Aérea.
Embora
eu não soubesse disso antes de começar
o curso, esse fato facilitou missões futuras
e abriu perspectivas para outros pilotos seguirem o
mesmo caminho ("abandonarem a caça ou outras
aviações", cursarem o ITA e depois
seguirem para serem pilotos de prova). Hoje em dia isso
é um fato comum, e muito bom para a qualidade
dos recursos humanos na Força Aérea.
Embora
não seja muito divulgado, é importante
ressaltar que existem apenas cinco escolas de ensaios
em vôo no mundo. Uma delas e exatamente aqui no
nosso Brasil! Isso sempre foi uma razão de orgulho
para mim (e gostaria que fosse para todo Brasileiro),
pois, apesar de todas as dificuldades e limitações
orçamentárias, somos capazes de manter
uma instituição do calibre da Divisão
de Ensaios em Vôo em padrão internacional
graças principalmente à dedicação
e profissionalismo de seus integrantes.
Em
minha passagem pela AEV, tive a oportunidade de voar
vários tipos de aeronaves de última geração
da década de 90, como os caças americanos
F-15 Eagle, F-16 Falcon e F-18 Hornet. Também
voei o MIG-29 Fulcrum, na Rússia.
Além
disso, também tive a oportunidade de participar
de vários projetos nacionais de grande interesse
como o primeiro míssil ar-ar MAA-1, cujo primeiro
lançamento, realizado pelo então Maj.
Márcio Jordão, eu tive o prazer de acompanhar
como "chase" (aeronave que voa próximo
ao lançador para filmar e garantir a segurança
em caso de qualquer problema, como explosão,
colisão, apagamento do motor, etc). Minha chance
de lançá-lo veio no dia seguinte. Era
o segundo lançamento daquele equipamento nacional.
Fizemos na área da Barreira do Inferno, em Natal,
RN. Aquele seria o segundo de uma série de lançamentos
com sucesso, provando, entre outras coisas, a capacidade
da indústria nacional.
Eu
sou o "Prova 37"! Código de chamada
rádio que trago comigo com muito carinho, assim
como a lembrança de cada um dos amigos da AEV.
1996
- 1998: Esposa, 2 filhos, cinco malas ...e um cachorro.
Welcome to US!
Em
1996 fui enviado para Mestrado (Master's Degree em Systems
Engineering) na Naval Postgraduate School - NPS em Monterey
na Califórnia, EUA. Outro curso, outra língua,
outro País.
Para
nós, eu e minha família, um outro desafio.
Lembro bem da sensação quando estávamos
chegando a Los Angeles. Olhava a cidade de cima, lembrava
que ainda teria que pegar uma conexão para Monterey.
O avião está atrasado. Será que
dará tempo?
Olhei
para o lado, vi as crianças dormindo e pensei
Meus Deus, me ajude! Permita que eles
sejam felizes nessa nova vida.
Interessante
pensar que o que eu tinha de mais precioso estava ali,
dentro daquele avião. Na verdade, estava ali
tudo o que eu tinha literalmente: esposa, 2 filhos,
cinco malas, e um cachorro, o MIG, um pequeno poodle
batizado em homenagem à agilidade do MIG-29!
Pousamos,
fizemos a conexão, quase sem problemas, e finalmente
chegamos em Monterey. Conforme minhas expectativas,
Fátima, Fábio e Carol superaram todos
os problemas iniciais de adaptação e língua
com bastante facilidade, permitindo que eu novamente
me dedicasse com bastante afinco às atividades
de pesquisa.
Como
resultado, fui convidado a permanecer nos Estados Unidos
e continuar minhas pesquisas em nível de Doutorado
(PhD).
A
experiência de vida adquirida pela convivência
em Monterey foi excelente para todos nós. Tivemos
a oportunidade de conhecer muitos lugares e pessoas
maravilhosas com as quais mantemos excelente contato
até hoje, mais de dez anos depois!
1998:
A seleção de astronautas
O
Brasil havia entrado no programa da Estação
Espacial Internacional (ISS) em 1997, como participante,
através da NASA. Eu não fazia idéia
de nada disso! Pelo acordo, o Brasil teria que produzir
no país, pagando à indústria nacional,
seis componentes da espaçonave (ISS) e entregá-las
ao consórcio dos 16 paises participantes. Em
troca, o Brasil teria direito a executar experimentos
no ambiente de microgravidade (o melhor já conseguido
pelo homem), a bordo da ISS, ter intercâmbio de
pesquisadores e um vôo espacial. Para tanto, o
Brasil precisava treinar um astronauta.
Veio
então divulgação da seleção
do primeiro astronauta brasileiro. Foi feita pela Agência
Espacial Brasileira através de edital de seleção
pública no jornal, a nível nacional. Isso
foi em Maio de 1998. Eu estava concentrado em minhas
atividades de pesquisa em Monterey, na Califórnia.
Soube da notícia através de um e-mail
enviado pelo meu irmão Luiz Carlos.
A
princípio achei um tanto difícil que eu
pudesse ser selecionado entre tantos excelentes candidatos
disponíveis. Porém, estava ali um caminho
para tornar realidade algo que até então
era apenas um "sonho distante". Portanto,
tentar, com todo coração e alma, era absolutamente
necessário! Por que não?!
Preenchi
a papelada. Enviei cheio de esperanças e dúvidas.
Esperei...esperei...e esperei.
Um dia veio a resposta. Veio por fax. Testes preliminares,
exames médicos, físicos, psiquiátricos
e a entrevista se seguiram.
Como
disse no final da entrevista de seleção
Imagine como está se sentindo aquele garoto
aprendiz de eletricista só pelo fato de estar
participando dessa seleção!!
O
anúncio da minha escolha está entre os
momentos de minha vida que sou capaz de descrever em
todos os detalhes, mas isso fica para uma ocasião
mais propícia!
Era
o início de um novo "capítulo"
em minha vida. Mais um desafio, mais uma missão:
levar a bandeira do Brasil ao espaço pela primeira
vez, mesmo com o sacrifício da própria
vida, se for necessário. Recebi a mensagem para
levar a Garcia (se você não conhece
essa expressão, pesquise!) e assim o fiz.
1998
- 2000: O treinamento de astronautas
Instalados
em Houston, em agosto de 1998, tive que deixer as funções
de militar da ativa para me dedicar exclusivamente às
funções civis de astronauta, a serviço
do Brasil.
A
função de Astronauta é função
CIVIL, com muitas atividades de relações
intitucionais com o setor político, organizações
internacionais, e a própria atividade no espaço,
com países signatários de acordos de uso
pacífico do espaço, que são completamente
incompatíveis com a atividade e regulamentos
militares.
Portanto,
eu sabia que minha carreira militar tinha terminado,
sacrificada pela nova missão. Agora eu era Astronauta,
e isso teria um novo peso, uma nova importância,
não só para a ciência, mas especialmente
para a Educação no Brasil.
Começaram
os treinamentos para a nova etapa. Muitos treinamentos,
duros, intensos, distantes da família, distantes
de todos, distante dos limites fisiológicos e
psicológicos que eu achava que tinha. Os dois
primeiros anos foram de curso. Procedimentos, sistemas
do ônibus espacial, sistemas da Estação
Espacial, emergências, mais emergências.
Ainda não está bom. Mais treinamento,
mais treinamento.
Em
dezembro de 2000, finalmente, recebi o meu brevê
de astronauta na NASA. Eu era então, oficialmente,
o primeiro Astronauta Profissional Brasileiro.
Mas ainda faltava muita coisa. Enquanto eu me dedicava
completamente ao treinamento, na minha função
operacional de astronauta, no Brasil a parte técnica
do acordo da ISS ia de mal a pior.
A
administração não conseguia coordenar
a fabricação das peças necessárias
ao acordo.
Como astronauta, eu mantinha meu treinamento, estando
pronto para atender à escalação
para vôo no momento que o país determinasse.
Também trabalhava com a parte técnica
do projeto do laboratório Japonês KIBO
entre Houston (NASA) e Tsukuba (JAXA Agencia
Espacial Japonesa). Todos os astronautas têm funções
técnicas, além das funções
normais operacionais.
Em
2002 a Agência Espacial Brasileira oficialmente
desistiu de fabricar as peças nacionais que dariam
um certificado de qualidade extremamente importante
para a indústria brasileira para exportações
de alta tecnologia.
2000
- 2005: A novela da participação brasileira
na Estação Espacial Internacional - ISS
Resolvi
que era hora de entrar no circuito técnico para
tentar ajudar a manter o país no programa e evitar
a vergonha de sermos o único país, entre
os 16 participantes, a não ser capaz de cumprir
sua parte no acordo (algo que, além da vergonha,
seria um péssimo cartão de visitas internacional
para nossas indústrias e centros de pesquisa).
Deixei
boa parte do trabalho técnico que havia sido
designado, entre NASA e Japão, e solicitei à
NASA que me designasse para acompanhar a situação
de hardware da participação brasileira
(tanto as negociações, quanto os procedimentos
de engenharia).
Conseguimos recuperar a participação mudando
o escopo da responsabilidade brasileira no acordo: de
seis peças com investimento estimado na indústria
brasileira de 120 milhões de dólares em
cinco anos, para 43 pequenas placas adaptadoras com
investimento total de apenas 10 milhões do Programa
Espacial Brasileiro na indústria nacional. Essa
redução de custos foi necessária,
segundo a administração para adequar o
orçamento. Grande parcela do orçamento
do programa espacial é destinado para manter
o programa Chinês-Brasileiro de satélites
de Observação da Terra (CBERS), que envolve
centenas de milhões de dólares de investimento
necessário.
Mesmo
assim, o programa da ISS passou várias vezes
por ser cortado do orçamento. A administração
não conseguiu produzir nenhuma peça.
Em
2004, praticamente sem esperanças de que o Brasil
pudesse cumprir a sua parte, sem mas desculpas viáveis
para apresentar nas reuniões internacionais na
NASA com os outros 15 parceiros, mais ainda sem esperanças
de um vôo espacial ser escalado, resolvi pelo
menos tentar salvar a parte do nome do Brasil e pedir
ajuda ao SENAI-SP/FIESP.
Numa reunião de pouco mais de 15 minutos, eles
disseram:
Esse programa é muito importante para o Brasil
e para as nossas indústrias. É uma vergonha
essa situação de vexame em que nos encontramos.
Nós iremos construir os protótipos e,
se for necessário, todas as peças, sem
nenhum custo para a AEB! Fazemos isso pelo Brasil! E
ficamos muitos felizes de poder trabalhar com você,
um ex-aluno do SESI e do SENAI-SP!
Aquilo
deu novo ânimo. Agora seria uma questão
apenas da AEB gerenciar um acordo com o SENAI-SP e interligá-los
com a NASA e com o IFI-CTA para que tudo funcionasse
(o INPE já havia descartado o programa do seu
elenco de projetos).
O
Embaixador Pimentel, do Consulado Brasileiro em Houston,
nos auxiliou nos tratos diplomáticos com a administração
da NASA.
Eu
já não tinha tanta vergonha de andar pelos
corredores do prédio 1 (administração
técnica da ISS) da NASA em Houston.
A
AEB determinou que a sua gerência do projeto da
ISS coordenasse todo o processo.
O
tempo passou. Reuniões técnicas e mais
reuniões técnicas.
Acidente
do Columbia em 01 de fevereiro de 2003 e acidente em
Alcântara no mesmo ano. Atrasos operacionais.
Tristeza. Trabalhei na investigação do
Columbia. Perdi sete amigos próximos em Houston
e mais 21 no Brasil.
Perdi
também um pouco mais da esperança de conseguir
cumprir minha missão, não só com
a demora do retorno ao vôo dos ônibus espaciais,
mas também somado à restrição
do número de vôos, e à inacreditável
demora do Brasil produzir partes simples, mesmo com
a disponibilidade do SENAI-SP em construí-las
quando a administração assim determinasse.
2005
- 2006: A Primeira Missão Espacial Tripulada
Brasileira
Em
2005 a AEB tomou uma decisão surpreendente, que
me deixou extremamente feliz: realizar
a Missão Centenário em 2006 com os objetivos
de realizar experimentos nacionais em microgravidade,
fomentar essa área da ciência no Brasil,
promover o programa espacial (marcado negativamente
pelo acidente de Alcântara), motivar milhões
de jovens estudantes em todo o Brasil para as carreiras
de C&T, e criar a maior homenagem internacional
ao Centenário do vôo histórico de
Santos Dumont.
A
missão seria possível utilizando a participação
brasileira na ISS, mas teria de ser feita através
do outro parceiro majoritário, a Rússia,
visto a impossibilidade operacional dos ônibus
espaciais americanos. Eu seria o tripulante da Missão.
Caso eu tivesse qualquer problema, a Missão seria
realizada normalmente pelo Cosmonauta Russo Sergei Volkov.
Segui
para a Rússia em outubro de 2005. Na frente outro
grande desafio: aprender todos os sistemas do Soyuz
(espaçonave russa) e dos módulos russos
da ISS em menos de seis meses. Seria um record inclusive
para o setor de treinamento dos Russos.
Além
disso, como se isso já não fosse uma tarefa
enorme, em paralelo nos primeiros três meses,
eu teria também que aprender a língua
russa o suficiente para passar nos exames orais e operar
com segurança todos os sistemas das espaçonaves.
Se eu não fosse capaz de passar nos testes, o
meu backup, Sergei Volkov, assumiria a missão
brasileira, e eu teria falhado na minha.
A
pressão era enorme. A família ficaria
em Houston. Eu os veria novamente apenas por meia hora
no dia anterior à decolagem da Missão,
no Cazaquistão.
Mas,
Eu Venci! Vencemos juntos! Todos os brasileiros venceram!
Cumpri
a minha missão, levei a mensagem a Garcia,
e o coração Brasileiro decolou para o
espaço no dia 29 de Março de 2006 às
23:30 (horário no Brasil)!
2006:
O retorno da missão
A
missão da AEB cumpriu todos os seus objetivos
com louvor. Aliás, muito além das expectativas
da própria AEB!
A
parte operacional, minha parte, foi cumprida sem qualquer
falha de procedimento.
O
povo Brasileiro vibrou com a missão. O sentimento
de orgulho nacional foi enorme. A Bandeira do Brasil
chegou ao espaço pela primeira vez nas mãos
de um Brasileiro. E foram mãos simples! Não
de um privilegiado de berço, não de um
superdotado, não de alguém protegido pela
política, mas nas mãos de um filho de
servente, um menino pobre como tantos nesse nosso país,
um sonhador que teve na educação e no
sacrifício pessoal as armas para vencer na vida
e carregar nas costas o peso de representar uma nação
inteira.
Após
a missão, o Comando da Aeronáutica oficializou
a minha transferência do serviço ativo
militar para a reserva, de forma que eu continuasse
normalmente com as atividades da função
civil de astronauta que já executava desde 1998.
Isso
é um evento comum da carreira de astronautas
de origem militar em todos os países desenvolvidos
devido às incompatibilidades da função
civil de astronauta com o regulamento militar. Por exemplo,
todos os astronautas e cosmonautas que estiveram comigo
no espaço e que eram militares, também
já tinham sido, ou foram, transferidos para a
reserva.
Já
no Brasil, talvez pelo desconhecimento sobre as exigências
da carreira civil de Astronauta, e com certeza pelo
efeito do sucesso sobre a pobreza de espírito
de alguns, o evento foi revestido de ignorância
e sensacionalismo.
Os
críticos ao Programa Espacial Brasileiro se apresentaram
para falar sobre o que não sabiam ou sobre o
que não tiveram competência para fazer.
Para
mim, esse tipo de comportamento medíocre já
era conhecido, como citei anteriormente da ocasião
da minha decisão em me tornar um engenheiro.
O fato só serviu para comprovar a importância
histórica da missão. Em outras palavras,
novamente, o interesse da crítica é a
comprovação do sucesso! Não havendo
sentido em perder tempo com argumentações
improdutivas, simplesmente continuamos em frente com
o nosso trabalho no Programa Espacial Brasileiro. Isto
é, "a caravana passa e os cães ladram!"
Logo
após as comemorações no Brasil,
retornei ao Johnson Space Center, em Houston, visando
salvar novamente a participação brasileira
da expulsão do programa, visto que a NASA já
não podia esperar pelas peças Brasileiras.
Todo o atraso não podia mais ser tolerado no
cronograma dos vôos e as partes que seriam de
fabricação nacional seriam passadas para
a indústria americana. Foi um período
terrível de negociações internacionais.
Finalmente, depois de muita conversa com os representantes
da NASA, conseguimos retomar os procedimentos técnicos.
Infelizmente,
no final de 2006, frustrados com a administração
do programa no Brasil, a NASA colocou a participação
brasileira em um estado congelado, que aguarda
definições desde então a partir
das negociações da administração
AEB e Ministério das Relações Exteriores,
do lado do Brasil, com a NASA em Washington-DC e o Departamento
de Estado, do lado americano.
Nós,
da parte técnica....aguardamos a parte política
e administrativa.
2006
- Atual: Missão de Vida = Educação
Hoje
em dia, participo ativamente de vários setores
de atividades no Brasil e no mundo.
Trabalho
junto às instituições nacionais
e internacionais para o desenvolvimento do setor aeroespacial.
Aguardo,
à disposição do Programa Espacial
Brasileiro, em Houston, como Astronauta, a escalação
para um próximo vôo espacial brasileiro.
Quem sabe? O País pode me escalar a qualquer
momento.
Também
em Houston, permaneço à disposição
da Agência Espacial Brasileira para contatos técnicos
como representante do Programa Espacial Brasileiro.
Trabalho
como voluntário para causas sociais e ambientais.
Acho isso extremamente gratificante e um alimento para
a alma.
Oriento
centenas de jovens estudantes e profissionais, por internet
e pessoalmente, a encontrarem sua melhor habilidade
para buscar seus objetivos.
Fotografo
a vida. Pinto e desenho minhas idéias.
Trabalho
como engenheiro em projetos e consultorias técnicas
a empresas no Brasil e no exterior.
Escrevo
artigos e outros textos com a finalidade de conscientizar
e motivar pessoas para descobrirem o seu potencial.
Trabalho
como Professor Convidado do Departamento de Engenharia
Aeronáutica da Universidade de São Paulo
- USP, para a criação de um curso público
de Engenharia Aeroespacial. Também como educador
ministro Palestras, Treinamentos e Cursos para empresas
e instituições públicas, usando
minha experiência e conhecimentos para a motivação
e qualificação de seus recursos humanos.
Sou
Pesquisador Convidado do Instituto de Estudos Avançados
da USP em São Carlos, SP, onde Coordeno a Rede
de Tecnologia ALICE - Associação de Laboratórios
Interdisciplinares de Ciências Espaciais, que
servirá de núcleo para a criação
de um primeiro Centro de Tecnologia Aeroespacial estrategicamente
fora de São José dos Campos.
Sou
Diretor do Instituto Nacional para o Desenvolvimento
Espacial e Aeronáutico.
Sou
Embaixador Mundial do WorldSkills International para
a promoção da Educação Profissional
em 52 países.
Isto
é, minha vida é dinâmica e super
produtiva, graças ao meu próprio esforço
e aos ensinamentos dos meus pais e professores.
Eu
vivo e trabalho com motivação, honestidade,
ética, afinco e persistência em todas essas
atividades, exatamente como eles me ensinaram...há
muito tempo atrás. Faço o que gosto, e
gosto do que faço.
Meus
objetivos são simples: ser útil para o
maior número de pessoas possível, trazer
otimismo e bem estar, espalhar coisas boas e felicidade,
ser feliz...até o dia de, finalmente, poder abraçar
Aquele que nunca me abandonou.
Sentir que cumpri bem as missões que recebi na
vida. Só isso!
Não
sei sobre o futuro, mas sei sobre meus objetivos e a
minha vontade. Na verdade continuo simplesmente seguindo
meu coração, meus sonhos, meus princípios
de menino do interior. Eles não são novos,
começaram há muito tempo atrás
nas caminhadas longas das manhãs frias com o
meu pai, na poeira levantada pelos motores dos NA T-6
da Esquadrilha da Fumaça, no cheiro de combustível
dos hangares, no cenário maravilhoso do tapete
branco das nuvens acima das tempestades, na serenidade
da visão do nosso Planeta azul, no carinho e
no conselho das pessoas que amei na vida.
Não
sei por quanto tempo ainda vou permanecer nesta Terra,
nesta dimensão, mas enquanto estiver por aqui,
vou continuar com a minha missão de vida. Cada
vez mais crianças terão educação,
saúde e felicidade. Por enquanto, enquanto vivo,
posso falar da minha história, e tentar motivar
pessoas que podem conversar comigo pessoalmente, nas
minhas palestras, aulas, eventos, reuniões, consultas
de coaching, aí pelo mundo, em qualquer lugar,
na vida. O dia que eu me for, ficarão as idéias
na memória, na atitute, no comportamento, e na
vida de muitos.
Estátuas
não duram para sempre, homenagens também
são esquecidas, mas idéias perduram para
a eternidade, e podem despertar o espírito da
"boa luta" em cada uma das pessoas que se
aventurarem a "ser", serem humanos, serem
parte de Deus, serem livres, serem felizes...
Eu
desejo que as minhas idéias, de alguma forma,
independentemente das dificuldades da situação
atual, possam fazer decolar o Fernão Capelo Gaivota
que existe dentro de VOCÊ! Que você voe
rápido! Que você voe alto! Que você
voe para os seus sonhos!
É
possível...acredite nas suas asas!
|